Foto: Alexandre Vieira
Notícia do dia 29/06/2025
“Meu nome é Boi Caprichoso. Foi por meio de muitas andanças que cheguei aqui, na minha Parintins.” Com este brado de resistência, Caprichoso apresenta a segunda noite com “Kizomba, Retomada pela Tradição”
Na abertura azul e branca, o apresentador Edmundo Oran citou a marandueira Márcia Kambeba: “Quem busca a retomada, sabe que memória não é passado, mas caminho. Na oralidade reencontramos vozes que nos lembram quem somos, cada palavra contada é um passo de volta para casa. Então, escute as vozes de dentro!”
Seguindo a linha de raciocínio, o azul e branco iniciou sua apresentação com a Figura Típica Regional do Marandoeiros. Diversos contadores/as de história como Tia Dora, Seo Dray, o pedreiro, Adolfo Lourindo, Julita Cid, Mestre Waldir Viana, Marujo Marina, dona Siloca, Coracy, dentre tantos outros que se expressaram em forma de versos, de histórias ou por meio do tambor da Marujada, retomando memórias do Caprichoso que eles mesmos construíram.
Nesta noite de tradição, a Lenda Amazônica apresentada emerge do reconhecimento da importância da memória de um povo, como ato de resistência. De gente que fez da sua vida a extensão de seus próprios territórios, tornando águas, seres e florestas como parte de si, como o famoso sacaca Merandolino, do rio Arapiuns.
Contam os antigos que quando Merandolino inalava o seu fumegante tauari e mergulhava nas águas do Arapiuns, os peixes de todas as espécies o ladeavam e assistiam seu engeramento numa imensa serpente que deslizava nas profundezas das águas entre botos, arraias e poraquês, para boiar em outras comunidades para fazer uso do seu dom de curar. Merandolino tornou-se encantado, recebendo a missão de ser o eterno guardião das águas escuras do rio Arapiuns, no Oeste do Pará. E hoje, quando alguém tenta profanar suas sagradas águas, logo surge uma luz azul anunciando que está vindo o eterno sacaca Merandolino.

Foto: Alexandre Vieira
Os encantados são forças sobrenaturais que se manifestam através do engeramento, ou seja, pela tomada do corpo físico dos corpos de sacacas ou pajés, que assumem formas fantásticas de bichos, fenômenos naturais como raios ou a própria pororoca. Contam os moradores que é possível sentir a força da sua presença mística no local. Como encantada, a Rainha do Folclore Cleise Simas levitou na arena do Bumbódromo, sendo trazida por uma metamorfose de Homem e Cobra, içada por um guindaste, levando a nação azul ao êxtase
O Boi Caprichoso escolheu trabalhar nesta noite a retomada dos espíritos Munduruku, como forma de resistência da vida na floresta. Por não estar dentro do território politicamente demarcado pelo estado brasileiro, o local de descanso dos guerreiros Munduruku foi corrompido descaradamente, com a construção da hidrelétrica Teles Pires, na divisa entre os estados do Mato Grosso e Pará.
As mulheres guerreiras, Wakoborun, marcharam para retomar aquilo que é delas e de seu povo! “O mundo está descalibrado, mergulhado em caos”, gritam os Wãmoat (pajés)! “As mães espirituais clamam por vingança”! Os pariwats iniciaram a violação do ventre de Pucha-cy (mãe dos bichos), ao invadirem a Cachoeira das Sete Quedas, portal sagrado para os Wuy Jugu (como os Munduruku se autodenominam) e de lá retirarem as itigã’s – urnas funerárias invioláveis na cosmopercepção deste Povo, local em que passam a habitar o corpo e o espírito dos que ancestralizaram.
Somente o banquete sagrado pode aplacar a fúria das mães espirituais e as mulheres batem os pés em tempo de retomada das doze itigãs: antes do banquete, a guerra! Marchem, Wakoborun (mulheres guerreiras) Retomem o karoxibebe (como os Munduruku chamam a cachoeira das sete quedas), as sete quedas que protegem o portal que divide o mundo dos vivos e dos mortos, por meio do alimento ritualizado. O pajé Erick Beltrão protagonizou o ritual comandando a celebração da retomada.

Foto: Alexandre Vieira
Incidentes
Nem tudo foi festa na apresentação do Caprichoso na noite deste sábado, 28. Um módulo cenográfico utilizado na apresentação da coreografia dos Povos Indígenas teve um leve princípio de incêndio, mas aendo necessário a intervenção do Corpo de Bombeiros para controlar a labareda.
O boi encerrou sua apresentação com duas horas e vinte e sete minutos e de maneira tranquila - ao contrário da primeira noite.